Ao Sol e à Sombra

Já tá na missa de sétimo dia. O carnaval morreu tem uma semana, mas só no calendário. As lembranças da bagunça e da folia durarão ainda muito tempo. A festa foi substituída por outra tão pagã quanto, também celebrada nas ruas, nos templos e em casa. O futebol começa o ano de verdade. De folião me tornei torcedor novamente.

O torcedor

Uma vez por semana, o torcedor foge de casa e vai ao estádio.

Ondulam as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem serpentinas e papel picado: a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo. Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades. Embora o torcedor possa contemplar o milagre, mais comodamente, na tela de sua televisão, prefere cumprir a peregrinação até o lugar onde possa ver em carne e osso seus anjos lutando em duelo contra os demônios da rodada.

Quando termina a partida, … O estádio fica sozinho e o torcedor também volta a sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinyas depois da morte do carnaval.

Assim Galeano (no livro Futebol ao Sol e à Sombra, que ganhei de presente em 96 e só depois de muito tempo descobri quem Galeano realmente era)  já definia minha religião que até hoje não tenho e todo o sentimento de um país que não é o dele.

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