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Entre tapas e bolachas

Saiu hoje n’A Gazeta uma reportagem sobre cantinas de escolas e suas refeicoes. Nem li nem lerei, mas passei o olho rápido e vi nas dicas do que é saudável comer e lá estava, entre frutas e paes, a bolacha sem recheio. N’A Gazeta, em Vitória, no ES.

Sinceramente, nem sei o que seria uma bolacha. É realmente um sinônimo de biscoito? Biscoito de polvilho é a mesma coisa que bolacha de polvilho? Existe bolacha champagne pra fazer pavê? Bolacha água e sal?

Enfim, o capixaba que já comeu bolacha que atire o primeiro biscoito. Coitadas das criancas tentando ter uma vida mais saudável e quebrando a cabeca, ou se levarem ao pé da letra, quebrando a cara mesmo, tentando descobrir como engolir uma bolacha no lanche.

Alguém me esclareça por favor o que leva o jornalista capixaba a escrever de tal forma? Soando paulista soa mais formal? É mais fácil comermos tapas espanholas do que bolachas paulistas ou seja de onde for, porque aqui em Vitória uma bolacha nao passa de um tapa.

Crianças paulistas no recreio, tento uma saudável refeição recheada de bolachas sem recheio

Crianças paulistas no recreio, tendo uma saudável refeição recheada de bolachas sem recheio

abstinência

Quando fui pra Europa passar 6 meses sabia que ia me privar e sentir falta de várias coisas – amigos, comida caseira, brasileiras, meu cachorro (se ele realmente fosse meu), Camburi, CEF (mentira) etc. Mesmo sabendo disso, sabia também que tudo aquilo que deixei pra trás poderia ser substituído de alguma forma, com similares ou genéricos – amigos de bar, comida alema, alemas, alemas, Weser, Sparkasse etc.

Só depois de passado um tempo por lá percebi que entre tudo que me faria falta, o que realmente nao consegui substituir, nem com genérico nem com similar nem com falsificacao chinesa foi a sétima arte, a telona, o cinema.

Pra quem nao sabe, cinema é uma das três coisas que pra mim sempre vale a pena, junto com música ao vivo e futebol no estádio. Seja qual for o filme, seja qual for a música, seja qual for a peleja, se for na telona, no palco ou no gramado, já vale a pena, eu gosto e pode me chamar que vou (na verdade xXx só valeu a pena pela soneca).

Nao que fazer cinema seja algo que os alemaes desconhecem ou esqueceram, quem assistiu algumas producoes tedescas que chegam as nossas salas – A vida dos outros, A queda, Adeus Lênin etc – sabe que é exatamente o contrário.

Alem de produzir cinema, eles tambem exibem. O que nao faltava em Bremen eram multiplexes e salas alternativas nos bairros boêmios, o preco bem azedo, claro, nao podia ser diferente.

Apesar disso, eles os alemaes tem o péssimo hábito de dublar todos filmes. Veja bem, nao os desenhos animados, que por definicao nao tem voz própria e o que lhes dá vida é por exemplo aquela tradicional risada do Felix o Gato, em bom português. Veja bem, nao os desenhos animados, que seriam inassistíveis por seu público alvo ainda pouco letrado na arte das legendas rápidas. Veja bem, DUBLAR TODOS OS FILMES (menos Adeus Lênin, A vida dos outros etc).

Fiquei sabendo até que existe um lobby, praticamente uma máfia que nao deixa acabar com essa prática de dublagens. É uma classe de trabalhadores forte, cheia de estrelas e famosos, entao dizem que por lá, pelo menos a médio prazo, Zé Pequeno ainda vai ser Johann Klein.

A alternativa que eu tinha era aprender alemao (sem chance) ou ir as escassas sessoes alternativas em salas longínquas de filmes mais distantes ainda, que sempre batiam com o horário do trabalho. Uma vez ou outra ainda prometia a mim mesmo e a meus amigos que Sim, vou lá só por ir, entenderei uma palavra ou outra e o filme é de acao mesmo, nao tem muito o que entender. Mentira, quando pensava pela segunda vez no assunto, já sóbrio, os muitos euros que pagaria pela barulhenta e desconfortável soneca de 2h nao valeriam a pena.

O que me restou foi passar um longo e rigoroso inverno cinemático, mas com suficiente biere, frauen e wurst pra fazer valer a pena.



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