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Ao Sol e à Sombra

Já tá na missa de sétimo dia. O carnaval morreu tem uma semana, mas só no calendário. As lembranças da bagunça e da folia durarão ainda muito tempo. A festa foi substituída por outra tão pagã quanto, também celebrada nas ruas, nos templos e em casa. O futebol começa o ano de verdade. De folião me tornei torcedor novamente.

O torcedor

Uma vez por semana, o torcedor foge de casa e vai ao estádio.

Ondulam as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem serpentinas e papel picado: a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo. Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades. Embora o torcedor possa contemplar o milagre, mais comodamente, na tela de sua televisão, prefere cumprir a peregrinação até o lugar onde possa ver em carne e osso seus anjos lutando em duelo contra os demônios da rodada.

Quando termina a partida, … O estádio fica sozinho e o torcedor também volta a sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinyas depois da morte do carnaval.

Assim Galeano (no livro Futebol ao Sol e à Sombra, que ganhei de presente em 96 e só depois de muito tempo descobri quem Galeano realmente era)  já definia minha religião que até hoje não tenho e todo o sentimento de um país que não é o dele.

Holy crap

Todos já sabem que de acordo com as previsoes, nós estamos no futuro já tem uns 3 ou 4 anos. Menos eu.

Nao raramente me vejo confuso em relacao ao século que estamos. Dois acontecimentos recentes me levaram a escrever sobre isso.

O primeiro ocorreu alguns meses atrás, quando num jogo Vasco x Ipatinga, no Maior do Mundo, o Gigante da Colina bateu o recorde do século de público em seus jogos. Duvidei na hora, pois nao foram poucos os clássicos dos milhoes, em épocas em que nao existia essa coisa de capacidade máxima em estádios, quanto mais no Maracana. Eu mesmo já estive em dois ou tres jogos com mais uns 100.000 presentes, muito além dos quase 75.000 contra o time mineiro. Fazendo uma história curta menor ainda, demorei alguns minutos e umas três bizoiadas na lista dos maiores públicos do século, nao surpreendentemente todos de 2001 pra cá, pra perceber que o maior público do século é na verdade o maior público da década.

A outra foi uma notícia recente no site d’A Gazeta, onde funcionários que trabalhavam numa obra pela prefeitura acharam no centro da cidade um tanque enterrado com gasolina do século passado. Aquilo realmente me surpreendeu, Posto de gasolina em 1890? Será que era pro porto? Fiquei nessa até ler o comentário de alguém mais sagaz do que eu perguntando de quando seria essa gasolina Século passado quando? 1999? Só aí percebi que estamos no século 21.

Mas convenhamos, pra que anunciar o “maior do século” ou “século passado” se esse século nao é ainda nem uma década?



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