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Ao Sol e à Sombra

Já tá na missa de sétimo dia. O carnaval morreu tem uma semana, mas só no calendário. As lembranças da bagunça e da folia durarão ainda muito tempo. A festa foi substituída por outra tão pagã quanto, também celebrada nas ruas, nos templos e em casa. O futebol começa o ano de verdade. De folião me tornei torcedor novamente.

O torcedor

Uma vez por semana, o torcedor foge de casa e vai ao estádio.

Ondulam as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem serpentinas e papel picado: a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo. Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades. Embora o torcedor possa contemplar o milagre, mais comodamente, na tela de sua televisão, prefere cumprir a peregrinação até o lugar onde possa ver em carne e osso seus anjos lutando em duelo contra os demônios da rodada.

Quando termina a partida, … O estádio fica sozinho e o torcedor também volta a sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinyas depois da morte do carnaval.

Assim Galeano (no livro Futebol ao Sol e à Sombra, que ganhei de presente em 96 e só depois de muito tempo descobri quem Galeano realmente era)  já definia minha religião que até hoje não tenho e todo o sentimento de um país que não é o dele.

DEUS

Começava a esquentar. A festa estava no auge. Os alegres convivas vibravam de euforia, barulhentos e amorosos. As belas mulheres, corpetes desabotoados, ficavam à vontade. Seus olhos suavemente se semicerravam. E seus lábios se entreabriam, deixando promessas de humildes tesouros de púrpura e néctar. Nunca cheias e nunca vazias, as taças! As canções se desmanchavam no ar, acompanhando o tinir dos cristais e das cascatas de risos das belas mulheres. E eis que o velho relógio da sala de jantar interrompe seu tique-taque monótono e sussurrante para ranger raivosamente, como sempre faz quando se dispõe a marcar as horas. As doze badaladas caíram, lentas e graves, solenes, como aquele ar de censura peculiar aos velhos relógios patrimoniais. Elas pareciam nos dizer que soaram muitas outras vezes para os nossos avós desaparecidos, e que soarão ainda muitas outras para os nossos netos, quando não mais estivermos no mundo. Sem se aperceberem da advertência, os alegres convivas fizeram, no entanto, uma pausa em seu tumulto e as belas mulheres deixaram de rir. Mas Alberico, o mais louco do grupo, levantou a taça e disse, com uma cômica gravidade:
- Senhores, é meia-noite! É a hora de negarmos a existência de Deus.
Toc-toc-toc! Alguém batia à porta.
- Quem é?… Não estamos esperando ninguém e os criados estão de folga…
Alguém abriu a porta, deixando ver a grande barba prateada de um velho de estatura alta, vestindo uma longa túnica branca.
- Quem é você, meu bom velho?
E o velho respondeu, com uma grande simplicidade:
- Eu sou Deus.
Frente a essa declaração, todos os jovens convivas sentiram certo constrangimento. Mas Alberico, que inegavelmente tinha muito sangue frio, convidou-o:
- Espero que iso não possa lhe impedir de brindar conosco?
Na sua infinita bondade, Deus aceitou o convite do moço e, em pouco tempo, todos se sentiam à vontade. Recomeçaram a beber, a rir, a cantar. O azul matinal já empalidecia as estrelas quando resolveram se separar. Antes das despedidas de seus anfitriões, com a melhor boa vontade do mundo, Deus concordou que ele, Deus, não existia.

- Alphonse Allais



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