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abstinência

Quando fui pra Europa passar 6 meses sabia que ia me privar e sentir falta de várias coisas – amigos, comida caseira, brasileiras, meu cachorro (se ele realmente fosse meu), Camburi, CEF (mentira) etc. Mesmo sabendo disso, sabia também que tudo aquilo que deixei pra trás poderia ser substituído de alguma forma, com similares ou genéricos – amigos de bar, comida alema, alemas, alemas, Weser, Sparkasse etc.

Só depois de passado um tempo por lá percebi que entre tudo que me faria falta, o que realmente nao consegui substituir, nem com genérico nem com similar nem com falsificacao chinesa foi a sétima arte, a telona, o cinema.

Pra quem nao sabe, cinema é uma das três coisas que pra mim sempre vale a pena, junto com música ao vivo e futebol no estádio. Seja qual for o filme, seja qual for a música, seja qual for a peleja, se for na telona, no palco ou no gramado, já vale a pena, eu gosto e pode me chamar que vou (na verdade xXx só valeu a pena pela soneca).

Nao que fazer cinema seja algo que os alemaes desconhecem ou esqueceram, quem assistiu algumas producoes tedescas que chegam as nossas salas – A vida dos outros, A queda, Adeus Lênin etc – sabe que é exatamente o contrário.

Alem de produzir cinema, eles tambem exibem. O que nao faltava em Bremen eram multiplexes e salas alternativas nos bairros boêmios, o preco bem azedo, claro, nao podia ser diferente.

Apesar disso, eles os alemaes tem o péssimo hábito de dublar todos filmes. Veja bem, nao os desenhos animados, que por definicao nao tem voz própria e o que lhes dá vida é por exemplo aquela tradicional risada do Felix o Gato, em bom português. Veja bem, nao os desenhos animados, que seriam inassistíveis por seu público alvo ainda pouco letrado na arte das legendas rápidas. Veja bem, DUBLAR TODOS OS FILMES (menos Adeus Lênin, A vida dos outros etc).

Fiquei sabendo até que existe um lobby, praticamente uma máfia que nao deixa acabar com essa prática de dublagens. É uma classe de trabalhadores forte, cheia de estrelas e famosos, entao dizem que por lá, pelo menos a médio prazo, Zé Pequeno ainda vai ser Johann Klein.

A alternativa que eu tinha era aprender alemao (sem chance) ou ir as escassas sessoes alternativas em salas longínquas de filmes mais distantes ainda, que sempre batiam com o horário do trabalho. Uma vez ou outra ainda prometia a mim mesmo e a meus amigos que Sim, vou lá só por ir, entenderei uma palavra ou outra e o filme é de acao mesmo, nao tem muito o que entender. Mentira, quando pensava pela segunda vez no assunto, já sóbrio, os muitos euros que pagaria pela barulhenta e desconfortável soneca de 2h nao valeriam a pena.

O que me restou foi passar um longo e rigoroso inverno cinemático, mas com suficiente biere, frauen e wurst pra fazer valer a pena.

Holy crap

Todos já sabem que de acordo com as previsoes, nós estamos no futuro já tem uns 3 ou 4 anos. Menos eu.

Nao raramente me vejo confuso em relacao ao século que estamos. Dois acontecimentos recentes me levaram a escrever sobre isso.

O primeiro ocorreu alguns meses atrás, quando num jogo Vasco x Ipatinga, no Maior do Mundo, o Gigante da Colina bateu o recorde do século de público em seus jogos. Duvidei na hora, pois nao foram poucos os clássicos dos milhoes, em épocas em que nao existia essa coisa de capacidade máxima em estádios, quanto mais no Maracana. Eu mesmo já estive em dois ou tres jogos com mais uns 100.000 presentes, muito além dos quase 75.000 contra o time mineiro. Fazendo uma história curta menor ainda, demorei alguns minutos e umas três bizoiadas na lista dos maiores públicos do século, nao surpreendentemente todos de 2001 pra cá, pra perceber que o maior público do século é na verdade o maior público da década.

A outra foi uma notícia recente no site d’A Gazeta, onde funcionários que trabalhavam numa obra pela prefeitura acharam no centro da cidade um tanque enterrado com gasolina do século passado. Aquilo realmente me surpreendeu, Posto de gasolina em 1890? Será que era pro porto? Fiquei nessa até ler o comentário de alguém mais sagaz do que eu perguntando de quando seria essa gasolina Século passado quando? 1999? Só aí percebi que estamos no século 21.

Mas convenhamos, pra que anunciar o “maior do século” ou “século passado” se esse século nao é ainda nem uma década?



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